Barra do Garças – MT – 22 de maio de 2024
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Dez nomes fundamentais do centenário

Qualquer lista é capaz de provocar discussões e injustiças. Neste especial de 100 anos do Athletico, escolhemos 100 personalidades para contar a história do centenário rubro-negro. Muitos nomes, importantes, porém, ficaram fora da linha de corte.

Para tenta reparar algum dano, trazemos outros dez nomes que mereceriam estar na lista inicial e acabaram não entrando por obra do acaso. Veja abaixo nomes fundamentais do centenário rubro-negro!

Antônio Carletto Sobrinho, em foto de 2008
Antônio Carletto Sobrinho, em foto de 2008

Antonio Carletto Sobrinho 

Alguém há de fazer a conta com as devidas contextualizações e correções monetárias. Já ouvi estimativas de que o lucro que o trabalho de Antonio Carletto Sobrinho deu ao Athletico chega perto de US$ 500 mi em menos de 50 anos. Não há dúvidas, porém, de que o maior caça-talentos do futebol brasileiro também é maior ativo do Furacão em cem anos de história. 

Se o craque é aquele que antevê a jogada, Carletto é o cara que anteviu vários craques, pois outra não é a função do olheiro que anda por este país – e no caso dele, pelo mundo – achando a flor no lodo. 

Nascido em Cambé, no norte do Paraná, o elegantíssimo e discreto Carletto se aproximou do CAP no tempo da retaguarda atleticana. Em 1977, assumiu pela primeira vez como diretor de futebol e, de lá para cá, com alguns intervalos, esteve envolvido, muitas vezes com a palavra final, na prospecção de jogadores para o clube.

De Ziquita a Bruno Guimarães, o resultado de campo e o balanço financeiro devem muito ao olho certeiro de Carletto. No Brasil, ninguém manja de bola como ele e para nossa sorte ele dedicou mais de 50 anos de sua vida ao Athletico.

Professor e historiador Heriberto Ivan Machado, em foto de 2009.
Professor e historiador Heriberto Ivan Machado, em foto de 2009.

Heriberto Ivan Machado 

O bom historiador precisa ter o espírito capaz de vibrar no mesmo ritmo do ambiente, das instituições e dos fatos que recompõe. Quando escreve sobre heróis, como o professor Heriberto Ivan Machado, precisa ter no temperamento e na mentalidade muito do reflexo das figuras por ele evocadas e do “mundo crepuscular das sombras dos homens extintos”. 

O professor, nascido em Santo Antônio do Sudoeste, fronteira com a Argentina, tem tudo isso de sobra. Colecionador de história do futebol desde a infância, Heriberto chegou a Curitiba em 1966 para estudar e tentou ser goleiro do CAP. Tinha talento para o arco, mas a vida o levou para as Letras, carreira na qual virou professor de referência enquanto montava o mais importante acervo histórico do Furacão, seu grande projeto de vida. 

Nas horas que sobravam, também estudava a história do futebol paranaense. Incansável na busca da verdade real, muitas vezes derrubou mitos e anedotas folclóricas do futebol paranaense, o que o indispôs muitas vezes com figuras da imprensa e cartolas. 

Graças ao seu empenho singular, a história atleticana pode ser contada no centenário do clube. Teve muitos parceiros importantes como Zinder Lins, Valério Hoerner, José Paulo Fagnani e Levi Mulford e tem um séquito de discípulos e amigos que são continuadores de seu trabalho. Heriberto é o Heródoto rubro-negro, o historiador primordial. Longa vida ao “professor”.

Zequinha 

A experiência mostra que não se deve ser amigo dos seus ídolos, mas o caso de Zequinha é uma exceção que confirma a regra. Tive a sorte de conhecê-lo bem quando meu pai e o presidente Farinhaki o levaram com uma piazada boa da base atleticana para jogar no Iguaçu de União da Vitória.

Sorocaba, Valdir Feijão, Mané, Jefferson, Falcão, Odair eram alguns dos meninos e Iguaçu foi campeão com Zequinha. Eu era menino e só ficava observando José Carlos de Oliveira contando grandes histórias. 

Um Marco Polo do futebol, ele foi um dos pioneiros no Japão e na China e o primeiro técnico ídolo da torcida que eu vi no CAP. Nos anos 1990, o ex-zagueiro foi o interino que apagou nossos maiores incêndios, dentre os quais o da Páscoa de 1995.

Um grande caráter e uma capacidade invulgar para escalar o time e gerir o elenco. Com ele no banco, o Athletico sempre foi grande.

Antônia Schwinden, em foto de 2008
Antônia Schwinden, em foto de 2008

Antônia Schwinden 

Antônia chegou a Curitiba em plena efervescência da era Joffre Cabral: “Athletico, você não presta, mas eu te amo!”

Casou-se e a família foi morar nas cercanias do clube, no Água Verde, e passou frequentar a Baixada. Os “anos Pinheirão” a afastaram, mas ela voltou com tudo nos anos 1990, quando outra grande transformação se deu, batizada por de a “revolução do xixi”.

A arquitetura das novas arenas se tornou mais amigável para as torcedoras e o público feminino mudou a forma de se frequentar o estádio, fenômeno que Antônia registrou no já clássico livro “Dez Atleticanas e Uma Fanática”, lançado em 2008.

Antônia, para mim é o símbolo das mulheres no clube que teve a primeira torcida feminina do país, que tem torcedoras históricas como Leide Marinoni e Enedina Alves Marques, e que tem grupos organizados, como as Atleticaníssimas, representando esse sentimento nas arquibancadas enquanto tenta mudar a história machista e violenta do país.

Atacante Walter, em foto de 2016
Atacante Walter, em foto de 2016

Walter 

Quando escrevia crônicas semanais em um diário local, saudei a chegada de Walter com uma em elogio à figura fantástica do “gordo ágil”. “Aquele sujeito que não se deixa intimidar pelo sobrepeso e sabe mexer o corpão com coragem, como se fosse um Ney Matogrosso rechonchudo”. 

No futebol, esse raro tipo de personagem se destaca como Paul Gascoigne, Ronaldo e o maior de todos, Diego Maradona. Quem joga suas peladas já foi surpreendido por um adversário corpulento e subestimado. E de repente lá está o ofegante artilheiro fazendo gols de todos os jeitos e usando o corpo volumoso para proteger a bola.

A torcida do Athletico Paranaense vibrou por ter visto a melhor versão do talentoso e carismático Walter, o gordo ágil fundamental do futebol brasileiro. A bola amava Walter, um dos supercraques que não aconteceram o tanto que podiam por circunstâncias alheias às vontades da bola.

Sua melhor fase coincidiu com as finais do Paranaense de 2016, quando todos compartilhamos cinco coxinhas com ele. Sua volta por cima na Libertadores em 2020 foi o canto do cisne (e a bocada de foie-gras) do querido Walter, um herói trágico do Furacão.

Airton Gallina

Meu atleticano fundamental é Airton Antônio Gallina. Para mim, o tio Gallina. Um sujeito admirável que resumia as qualidades que espero de um bom atleticano: coragem heróica, humor boêmio, propensão pela tragédia e paixão absoluta pelo Athletico.

Do meio dos anos 1970 até que faleceu em 2018, Airton Gallina fez parte de todas as diretorias, retaguardas, conselhos, grupos de notáveis, revoada de cardeais, movimentos, reuniões e confrarias do atleticanismo. Foi, sobretudo, nosso grande torcedor. Especial amigo do meu pai, fui aos jogos um milhão de vezes com ele e com seus filhos Marco, Airton e Alexandre, e entramos em campo com o time outras centenas de vezes.

Nos primeiros anos da nova Arena, ele e a família montaram o histórico bar Caldernone Rosso Nero, que se tornou o ponto de encontro daqueles anos mágicos. Foi Gallina que me ensinou que o futebol é coisa séria e bonita como a luta política: tudo está em disputa, a luta é diária e incansável e só nos intervalos a gente vive um pouco ou ninguém segura esse rojão.

Furacao.com

Quando a internet ainda era um grande matagal, um bando de piás e gurias começou um projeto independente de comunicação digital sobre o Athletico que mudou o rumo das coisas. Era 1996 e o mundo estava em polvorosa. 

O Athletico apavorava o Brasil com Oséas e Paulo Rink e uma infinidade de inovações. Para nós torcedores, a grande novidade eram os jogos reverberando na Internet, as colunas ácidas e a linguagem particular que ia sendo criada dia a dia pela Furacao.com. A coisa era de alto nível, a começar pelo nome, perfeito e eterno enquanto seus correlatos e imitadores locais têm nomes que hoje soam bastante tolos.

A linha editorial da Furacao.com foi sempre cuidadosa com o rigor histórico, sempre teve rigor e história, sempre soube fazer zoeira no limite da urbanidade, mas sempre teve postura crítica corajosa.

Foi a grande inspiração para as dezenas de projetos digitais sobre o Athletico e ao retomar as atividades nos últimos dois anos, continua sendo o que é há tantos anos: um farol de atleticanismo na internet.

A página nunca teve um dono e até hoje são seus colaboradores que a mantém viva. Cito alguns deles como homenagem a esse grande trabalho voluntário: Cleverson Freitas, Marçal Justen Neto, Juarez Villela Filho, Loriano Modzinski, Eduardo Aguiar, Sérgio Tavares Filho, Luiz Eduardo Xavier, Patricia Bahr, Rogério Andrade, Glauco Hass e Thiago Caetano.

Atacante Ilan, em foto de 2002
Atacante Ilan, em foto de 2002

Ilan

No dia em que Ilan fez um gol de bicicleta em um Atletiba de 2003, encontrei-o no extinto e saudoso Beto Batata do Alto da XV. Ele estava jantando tranquilamente uma batata suíça, com a namorada, suponho, como se fosse um domingo à noite qualquer.

Tomado pelas emoções e numa grande privação de sentidos, ofereci-me para pagar a conta, mesmo sabendo que ele ganhou em bicho naquela noite mais do que eu ganhei no ano. Afinal, o curitibano Ilan Araújo Dall’Igna foi um craque e teve momentos altos no CAP. 

Quando Kléber não pôde jogar a primeira final, ele entrou e, em questão de cinco minutos, marcou o primeiro gol do Furacão, rumo ao título. Em 2003, foi brilhante. Foi o artilheiro da temporada com 24 gols, três deles numa goleada por 4 a 1 sobre o Flamengo. 

Foi convocado para disputar a Copa das Confederações com a seleção juntamente com o pentacampeão Kleberson e o meia Adriano. Quando voltou, fez mais um hat-trick sobre o Corinthians e em meio a muitas outras partidas memoráveis, golaços impossíveis, um daqueles grandes jogadores subestimados da história centenária rubro-negra.

Fabiano, em foto de 2001
Fabiano, em foto de 2001

Fabiano

O momento ápice da história do Athletico começa e termina com Alex Mineiro. O matador domina na intermediária defensiva e acha seu parceiro Kléber perto do círculo central. O Incendiário domina e gira e dá para Fabiano, o bravo lateral nascido em Cajamar.

O lateral arranca, imparável, e na entrada da área manda um chute rasteiro na relva úmida. Gabiru entra no carrinho e tumultua a decisão do goleiro Sílvio Luiz enquanto Alex já está no lugar certo para encerrar a operação.

O título de 2001 e a grande fase que o precedeu e sucedeu devem-se em boa parte à força de Fabiano. Apesar de ter feito alguns grandes golaços – contra Grêmio e Corinthians – aquele jogador que leva o time a ganhar a luta por pontos: era sempre lateral, falta, escanteio para nós. É o lateral direito da minha seleção centenária nos dias pares.

Abílio Ribeiro

Uma figura extraordinária do atleticanismo foi Abílio Ribeiro. Um lorde, o elegantíssimo presidente foi um dos cartolas mais amados e respeitados pela torcida atleticana.

Abílio nasceu em 1919 e começou a frequentar o Atlético aos 18 anos. Foi atleta dos juvenis, mas não chegou a jogar no time principal. Apaixonado por esportes, jogou vôlei e basquete, defendendo as cores rubro-negras. Em 1956, foi o mais jovem presidente do clube até então, eleito aos 37 anos.

Ao final do seu mandato, em 1957, Joffre Cabral e Silva foi eleito para o substituir. Porém, Joffre foi ao mesmo tempo eleito para a presidência do Clube Curitibano e não pôde assumir o clube.

A diretoria convocou novas eleições e Abílio Ribeiro foi reeleito, graças à boa gestão realizada. Desse modo, conseguiu completar seu grande sonho, que era ser campeão pelo Atlético em 1958, um de nossos títulos mais comemorados.

Glória das glórias, no lendário bar Paraná que ficava no terreo de uma das sedes do CAP na Rua XV de Novembro, o destaque do cardápio era o filé Abílio Ribeiro – homenagem ao mais elegante presidente da história do CAP.

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