Barra do Garças – MT – 13 de julho de 2024
Barra do Garças – MT – 13 de julho de 2024

Carnaval e as mulheres | FOLHAMAX


O carnaval é um dos festejos onde mais se falam dos assédios, e demais crimes contra a dignidade sexual das mulheres. Em meio a tudo isso, é importante mencionar quanto aos costumes carnavalescos de outrora, inclusive, as marchinhas entoadas, que embalaram e embalam gerações.

Rememoro da infância, onde a televisão aberta se perfazia do meio de comunicação da massa. As entrevistas nas grandes capitais, principalmente no Rio de Janeiro, faziam questão de mostrar pessoas estrangeiras “brincando” o carnaval brasileiro. Muitas vezes vi e ouvi repórteres entrevistando homens estrangeiros. E quando a pergunta era sobre a atração do carnaval do Brasil, muitos deles respondiam que as mulheres eram atrativos brasileiros. Falavam absurdamente das “mulatas tipo exportação” do país. Não se refletiam que as mulheres estavam sendo discriminadas e oferecidas como objeto.

Pessoas de todas as idades cantavam e dançavam as marchinhas, que, normalmente, traziam falas pejorativas e discriminatórias contra as mulheres. A Aurora, se fosse sincera, nas palavras do autor, teria um lindo apartamento com porteiro e elevador, e, ainda, poderia ser chamada de madame antes do nome. Já os cabelos da “mulata”, nas palavras do autor, não negam ser mulata na cor. Foi falado, também, da tal “mulata” que ela tem o sabor do Brasil, com a alma cor de anil, tendo sido nomeado para ela um tenente interventor. Foi dito, também, que como a cor da “mulata” não pega, e, por isso, queriam o seu amor. A “Nega do Cabelo Duro” foi questionada qual o pente que a penteava. E o Zezé, que não pode ser respeitado pelo corte de cabelo, sendo discriminado de inúmeras formas?

Pesquisa do Instituto Locomotiva e divulgado no site da Agência Patrícia Galvão trouxe números desanimadores. Segundo o estudo, 50% das mulheres já foi vítima de assédio sexual durante o carnaval, e 73% delas tem medo de passar pela situação novamente, ou pela primeira vez. A pesquisa contou com 1.507 pessoas entrevistadas. Seis a cada dez mulheres disseram ser o carnaval de hoje tão arriscado quanto o de antes. Segundo a análise, os números de riscos são sempre maiores para as mulheres negras. Entretanto, 97% das pessoas que foram ouvidas disseram que campanhas de enfrentamento são fundamentais para o combate. 

O exame trouxe, ademais, que uma parcela da sociedade ainda culpa a roupa curta, 15%, como convite ou sinal da mulher estar disponível. A percepção da sociedade vem mudando paulatinamente, pois 68% discordam sobre a roupa usada como mote ao assédio.

Outro dado foi quanto a se beijar mulheres sem o consentimento delas, quando se encontram embriagadas e sem possibilidade de manifestar: 81% dos homens discordam dessas atitudes, e 86% das mulheres também afirmaram discordar. Brasileiros e brasileiras concordam que há assédio contra as mulheres em épocas de festividades como o carnaval, 86%, afirmando que todas as pessoas que presenciassem deveriam contribuir para coibir essas atitudes. 

No ano 2015, um grupo de Mossoró/RN entoou o “Hino Alô Frida”: “Se tem racismo, eu falo!/ Eu não me Kahlo, eu não me Kahlo!/ Sem fobia, a folia será colorida!/ Alô Frida! Alô Frida!/ Vamos em marcha, vamos dançar/ Somos as Fridas, temos asas pra voar!/ A mulherada pisa ligeiro!/ O feminismo transforma o mundo inteiro!/ Sem cordão, sem forçação/ As Fridas decidem se sim ou se não!/ Pela igualdade e autonomia/ com muita luta e muito amor todos os dias! ”. 

Rosana Leite Antunes de Barros é Defensora Pública Estadual e mestra em Sociologia pela UFMT.



Últimas notícias

Gostou? então compartilhe!